1.
O sol tombou sobre a planicíe fria e vazia. O homem atirou mais um pedaço de madeira seca na fogueira e respirou fundo. Tinha feito acampamento nas rúinas de uma velha casa, um tradicional monte alentejano, abandonado há muito, como todas as casas, vilas e cidades. O esqueleto limpo e luzidio do dono da casa, ou do seu último ocupante, estava sentado a um dos cantos do único compartimento da casa, sentado numa cadeira de madeira que apodrecia, lentamente desfazendo-se em pó.
A casa ainda tinha telhado, danificado, mas suficientemente resistente para passar a noite. O homem tinha acendido a fogueira no meio do chão, a lareira estava arruinada, atafulhada com os tijolos que tinham tombado com a chaminé. O fumo era pouco, e escapava-se pelos buracos que tinham sido janelas e portas, e pelos buracos no telhado.
O homem segurava nas mãos um dos últimos vestígios do mundo que conhecera que ainda funcionava. Um relógio digital. A pilha ainda funcionava, e tinha a recarregado há mais de dois anos. A bracelete de plástico tinha-se partido, por isso o homem pendurou o relógio ao pescoço com um cordel, usando-o como um colar. Tinha mais dois pertences que nunca deixava, enrolados cuidadosamente em plástico para não se debotarem com a chuva e a humidade, duas fotografias, de uma mulher de cabelos ruivos e de uma bébé com 3 ou 4 anos, igualmente pálida e ruiva. O homem era encorpado, tinha longas barbas cinzentas e o crânio cuidadosamente rapado. Tinha um rosto vazio e frio, como a terra onde vagueava, mas cada vez que olhava para aquelas fotografias o seu rosto iluminava-se, e por momentos os olhos castanhos e escuros pareciam aqueles de um homem, e não de um lobo.
António Rainha
domingo, 12 de agosto de 2012
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